Poesia vira terapia para Alzheimer na terra de Shakespeare

Para combater a perda de memória que afeta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais estão recorrendo à poesia

 

size_590_Voluntária_lê_poesia_para_idosa_em_asilo_de_Stratford_upon_Avon_em_29_de_outubro_de_2013

Stratford upon Avon (Reino Unido) – Uma adolescente começa a ler um poema de Rudyard Kipling, rompendo o silêncio em uma sala cheia de idosos: “se puder manter a calma/quando todos à tua volta já a perderam”, quando um deles, doente de Alzheimer, completa com um murmúrio: “você será um homem, meu filho!”.

Para combater a perda de memória que afeta 800 mil pessoas no Reino Unido, instituições especializadas e hospitais estão recorrendo à poesia.

A melodia e o ritmo de versos conhecidos consegue bater na porta da memória, servem de “detonador que ativa” a palavra e as lembranças, explicou Jill Fraser. A associação “Kissing it Better”, que ela dirige, organiza leituras em asilos para idosos.

Quando os pacientes “escutam uma palavra que conseguem lembrar de um poema, eles ganham o dia”, contou Elaine Gibbs, diretora do lar para idosos Hylands, que abriga 19 velhinhos em Stratford upon Avon, terra natal de William Shakespeare, região central da Inglaterra.

Com os cabelos grisalhos presos e vestido florido, Miriam Cowley ouve com atenção uma jovem que lê o poema “À Margarida”, de William Wordsworth, um clássico nas escolas britânicas.

“Sabia o poema, mas tinha esquecido. Aprendi quando era menina”, lembrou esta antiga professora, que sofre com a perda de memória recente. “Terei belos sonhos, sonhos tranquilizadores, de margaridas e árvores”, comemorou.

Quando se chega a este centro, “todo mundo está sentado em seu canto e, de repente, você começa a ler um poema em voz alta e vê como o olhar deles se ilumina”, explicou Hannah Ciotkowski, uma voluntária de 15 anos.

“É maravilhoso quando se juntam a você para terminar um verso”, continuou Anita Wright, de 81 anos, ex-atriz da respeitada companhia Royal Shakespeare (RSC), que também lê neste lar e integra o projeto “Kissing it Better”, que conta com voluntários de 6 a 81 anos.

O ritmo da poesia “cola no nosso eu mais profundo”, assegurou Lyn Darnley, que chefia o departamento de voz e texto da RSC.

“A poesia pode afetar, recuperar lembranças, não só emoções, mas também da profundidade da linguagem”, continuou Darnley.

Anita Wright lembrou de uma experiência emocionante. Ela estava lendo um poema sobre um homem que se despedia da amada, quando uma idosa começou a chorar e lembrou da morte do namorado.

“Não tinha dito uma só palavra desde que entrou na instituição e este poema abriu as comportas porque remeteu a um episódio de sua vida”, explicou Anita, emocionada.

“A poesia não cura a senilidade”, disse Dave Bell, enfermeiro da organização Dementia UK, que luta contra o Alzheimer. “Mas tem o poder de, como a música, devolver confiança aos pacientes: eles descobrem que lembram de algo”. Além disso, “permite criar um laço entre gerações”, acrescentou.

“Quando for velha”, disse Hannah, de 15 anos, “vou querer que as pessoas venham me ver para ler poemas e cantar músicas para mim”.

Daqui, ó.

* trechos de livros que andam por aí (xxiii)

Êêêê…

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para mais razão, apenas para mais loucura.

O menino volta a esticar as pernas na escada. Ouvimos o apito de um barco no rio, um som melancólico. Como um pio de mau agouro. Mas não tenho por que sentir medo agora. Sou um homem sem medo, o que é bem raro aqui neste lugar.

In “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios“, de Marçal Aquino, Editora Cia. das Letras.

Escrever para combater a depressão

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Vocês já assistiram o filme “O Lado Bom da Vida”? Se não, fica aqui a nossa dica. Além de ser – tecnicamente falando – um filmaço, de impecáveis atuações, direção, edição e roteiro, aborda o tema depressão com realismo, leveza e bom humor.

O autor do livro que deu origem ao filme, Matthew Quick, conta como o processo de escrita foi fundamental para ajudá-lo a enfrentar a depressão.

Há sete anos, Matthew Quick deu um passo de coragem. Largou o emprego de professor de Literatura do ensino médio, na pequena cidade de Haddonfield, em New Jersey, para perseguir o sonho de se tornar um escritor. Sem renda e sem saber se teria sucesso, ele se mudou para o fundo da casa dos sogros e dedicou-se por três anos à arte da escrita. A experiência o fez reavaliar a vida, e as dificuldades do processo o levaram a um quadro de depressão. Foi então que Quick aprendeu a rir de si mesmo e criou Pat, protagonista do seu primeiro livro O Lado Bom da Vida, de 2008 e recentemente publicado no Brasil pela editora Intrínseca.

A obra chamou a atenção de Hollywood, que a adaptou para o cinema pelas mãos do diretor David O. Russel, o mesmo de O Vencedor. A produção homônima recebeu diversas indicações nas premiações mais importantes do cinema, inclusive na categoria de melhor filme do Oscar. Com o sucesso, Quick caiu nas graças e no foco das produtoras, e seu próximo livro, The Good Luck of Right Now, que só será lançado em agosto nos Estados Unidos, já teve o direito de adaptação vendido para a DreamWorks.

Em O Lado Bom da Vida, o personagem principal luta para recuperar sua sanidade mental e desenvolve uma filosofia que o leva a sempre enxergar os aspectos positivos do dia a dia. “Pat e eu dividimos semelhanças, como o amor intenso por futebol americano e a luta contra a depressão e a ansiedade”, alega Quick. A história que contrapõe tristeza com alegria, faz o leitor se esquecer das dificuldades enfrentadas pelos personagens para se dar ao luxo de rir em várias páginas. Por essa mistura tragicômica, tanto o livro quanto o longa conquistaram o público e promoveram uma história inteligente e fácil de se relacionar.

Matthew conta que, apesar de não ter nada contra, nunca fez terapia ou tomou remédios para combater a depressão. Na opinião dele, cada um deve lidar com sua saúde mental de maneira individual e escrever foi a forma terapeutica que ele encontrou para lidar com os problemas.

Fonte: Revista Veja