# blog da cultura

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Um bom site para passear quando se quer informação interessante é o blog da Livraria Cultura. Só clicar aqui, ó.

= literatura: um desafio ao que existe

Llosa

Mario Vargas Llosa

“… A literatura, ao contrário, diferentemente da ciência e da técnica, é, foi e continuará sendo, enquanto existir, um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam, independentemente de quão distintas sejam suas ocupações e seus desígnios vitais, as geo-grafias, as circunstâncias em que se encontram e as conjunturas históricas que lhes determinam o horizonte. Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi, nos sentimos membros da mesma espécie porque, nas obras que eles criaram, aprendemos aquilo que partilhamos como seres humanos, o que permanece em todos nós além do amplo leque de diferenças que nos separam. E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.

Nada, mais que bons romances, ensina a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do patrimônio humano, e a valorizá-las como uma manifestação de sua múltipla criatividade. Ler boa literatura é divertir-se, com certeza; mas também aprender, dessa maneira direta e intensa que é a da experiência vivida através das obras de ficção, o que somos e como somos em nossa integridade humana, com os nossos atos, os nossos sonhos e os nossos fantasmas, a sós e na urdidura das relações que nos ligam aos outros, em nossa presença pública e no segredo de nossa consciência, essa soma extremamente complexa de verdades contraditórias – como as chamava Isaiah Berlin – de que é feita a condição humana.” (Mario Vargas Llosa)

Clique para ler o artigo todo, entitulado Em defesa do romance (parece que a Cosac y Naif está lançando uma coletânea a respeito), que está na Piauí deste mês. É bem longo, mas é todo bom. Vale à pena, cada linha.

= ruas com livros dentro

rua

Por todas as cidades é frequente encontrar uma ou outra placa toponímica homenageando escritores portugueses, uns porque aí nasceram, outros porque aí habitaram. Mas nunca o homenageado foi o próprio livro. E isso encontra-se em Pombal, ao longo de vinte e seis ruas, numa pequena biblioteca com vinte e seis livros. Imagine, caro leitor, o que é dizer aos seus amigos, quando lhes indica a sua morada, que vive na Rua das Gaivotas em Terra, referência ao primeiro romance de David Mourão-Ferreira, ou então no Beco d’Os Gatos, obra de Fialho de Almeida. Certamente ficarão estupefactos e lhe perguntarão, desconfiados, se é mesmo verdade. Pode acreditar. Mas ainda há mais. Por exemplo, a Rua d’A Musa em Férias, de Guerra Junqueiro, a Rua d’Os Adoradores do Sol, de Fernando Namora ou a Rua do Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente. Uma verdadeira biblioteca de obras portuguesas se acha pelas ruas da cidade de Pombal, no centro do país.

(da revista Ler, portuguesa, excelente publicação sobre literatura. Para conferir o post completo, clique aqui.)

Seria bacana se essa moda pegasse por aqui, não é mesmo? A gente adoraria comprar pão numa padaria que ficasse na esquina das ruas Reinações de Narizinho com Morangos Mofados.

Aqui pelo Rio de Janeiro, uma das ruas com um dos nomes mais bonitos é a Travessa dos Poetas de Calçada, que fica logo ali ao lado do Theatro Municipal.

* trechos de livros que andam por aí (xv)

“Antes de tomar a decisão que iria mudar a sua existência de diversas maneiras, antes, pois, de tornar-se estúpido, Antoine tentou outros caminhos, outras soluções para resolver a sua dificuldade em participar da vida.

Eis a sua primeira tentativa, que se poderia julgar desastrada, mas que foi plena de sincera esperança. Antoine jamais tocara uma gota de álcool. Mesmo quando se feria ligeiramente, quando se arranhava, recusava-se, como bom abstêmio, a desinfetar-se com álcool setenta graus, preferindo a Betadina ou o Mercurocromo.

Em casa não tinha vinho nem aperitivos. Mais tarde, desprezou a utilização de artifícios fermentados ou destilados para estimular a falta de imaginação ou para fazer desaparecer os efeitos de uma depressão. Observando como o pensamento das pessoas embriagadas era vago e distante de qualquer preocupação com respeito à realidade, como suas frases se satisfaziam com a incoerência e, como coroando tudo, tinham a ilusão de declamar soberbas verdades, Antoine decidiu aderir a esta promissora filosofia. A embriaguez parecia-lhe o meio de suprimir toda e qualquer veleidade reflexiva da sua inteligência. Embriagado, ele não teria necessidade de pensar, ele já não o poderia: seria um retórico de aproximações líricas, eloqüente e volúvel. A inteligência no seio da embriaguez já não teria sentido; com suas amarras afrouxadas, ela poderia fazer naufragar ou ser devorada por tubarões sem que disso se desse conta. Risos sem motivo, exclamações absurdas, em estado de ebriedade ele amaria todo o mundo, seria desinibido. Dançaria, vira— voltaria! Oh, certamente, ele não esquecia a parte sombria do álcool: as tonturas, os vômitos, a cirrose à espreita. E a dependência.  Ele contava com sua transformação em alcoólatra. Isso traz plenitude. O álcool ocupa totalmente o pensamento e dá fim ao desespero: cura. Ele freqüentaria então as reuniões dos Alcoólatras Anônimos, contaria a sua trajetória, seria apoiado e compreendido por seres da sua espécie, os quais aplaudiriam sua coragem e sua vontade de recuperar-se. Ele seria alcoólatra, ou seja, alguém que tem uma doença socialmente reconhecida. Os alcoólatras são compreendidos, são cuidados, têm uma consideração médica, humana. Ao passo que ninguém pensa em compadecer-se das pessoas inteligentes:

“Ele observa os comportamentos humanos e isso deve fazer dele uma pessoa muito infeliz”, “Minha sobrinha é inteligente, mas é uma pessoa muito boa. Ela quer sair disso”, “Por um momento, tive medo de que você se tornasse inteligente.” Eis o gênero de reflexões bondosas, cheias de compaixão, a que ele teria tido direito se o mundo fosse justo. Mas não, a inteligência é um duplo mal: ela faz sofrer, e ninguém se dá ao trabalho de considerá-la uma doença.

Ser alcoólatra seria, em comparação, uma ascensão social. Ele padeceria de males visíveis, com uma causa conhecida e com tratamentos previstos; não existe desintoxicação para a inteligência. Enquanto, por um lado, o pensamento conduz a determinada exclusão, pela distância do observador com respeito ao mundo observado, ser alcoólatra poderia ser um meio de encontrar um lugar nesse mesmo mundo. E estar perfeitamente integrado na sociedade, quando isso não acontece naturalmente, é o desejo de qualquer alcoólatra. Graças ao álcool, ele não sofreria mais timidez alguma com respeito às relações humanas, e nelas poderia tranqüilamente imiscuir-se.”

(Martin Page in Como me tornei estúpido, 4ª reimpressão, Ed. Rocco, 2005.)

* trechos de livros que andam por aí (xiv)

“Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor.”

(Marçal Aquino in Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, 4ª reimpressão, Ed. Companhia das Letras, 2009.)