O livro que eu gostaria de ter escrito

Sempre fui doida por velhinhos fofinhos. Na parte do curso em que me apresento, inclusive, confesso isso. Pois um americano compilou conselhos desse pessoal sabido e está lançando “30 lessons for living” [30 lições pra viver].

Um pequeno resumo disso tudo você assiste aqui (escolha a legenda em português {subtitles}): 30 Lessons for living

30 Lessons For Living from Karl Pillemer on Vimeo.

Fonte: Dharmalog

Iniciativas como a Terapia da Palavra ganham respaldo da medicina

Coisa pra se comemorar. Saiu, na edição independente da Isto É desta semana, uma matéria que mostra o embasamento científico da prática da escrita sobre a cura de experiências traumáticas. Claro que a gente já sabia disso quando criou a Terapia da Palavra, mas ver o trabalho reconhecido é bom demais!

Para ler o texto na íntegra, clique aqui!

No escuro, com Clarice (crônica de Inês Pedrosa)

Tenho uma enorme dificuldade em começar o ano: o frenesim festivo angustia-me, não o entendo. Nunca consegui ser feliz por decreto, creio que é  por isso que tenho menos queixas da vida do que o comum dos portugueses. Não tenho um temperamento enevoado nem cultivo o cepticismo desamparado que serve de sedutor cenário ao pós-guerra da emancipação das mulheres: detesto gente lamurienta, gosto da festa quotidiana do amor e da alegria – por isso embirro com os rituais de festejo obrigatório: as doze passas (quem tem doze desejos assim tão organizadinhos e independentes?), o pé no ar, os abraços e beijos convencionais, o demónio das resmas de sms de pessoas que durante o resto do ano não querem saber se estou viva ou morta, tudo isso me dá cabo do juízo. E sobretudo mata-me os bons sentimentos, o que é triste e nem sequer é fado. Não podemos candidatar os bons sentimentos a património imaterial da humanidade? Sempre serviam para alguma coisa, porque para a literatura parece que deixaram de servir assim que o Cervantes morreu, o que me faz pena.

Assim, nesta passagem de ano, fugi para dentro do mundo de Clarice Lispector – um mundo de uma lucidez alucinante, que nos instiga a desbravar o tutano da vida. As frases de Clarice são relâmpagos que iluminam a mais bruta e profunda matéria do humano. Todos os seus livros são prodigiosos, no sentido literal: a cada releitura trazem novas descobertas – e, ao contrário do que tantas vezes se diz, não é necessário ser-se «intelectual» para aceder a Clarice. É necessário, sim, ser-se uma coisa mais difícil: livre, como Clarice profundamente foi. Essa liberdade exige inocência, a capacidade de olhar para o já visto e já nomeado como se não o conhecêssemos. O dom da sua escrita é o de iluminar os objectos e os seres mais simples, interrogando-os para os entender, sem juízos prévios. A força da sua voz advém dessa inocência inexpugnável, valente, ilimitadamente ousada. Releio Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres porque é o mais perfeito e feliz livro que conheço sobre a paixão como conhecimento em crescendo e intensidade física que perdura – contra séculos de literatura que choram a sua tragédia e brevidade. Este romance não começa nem acaba: abre com uma vírgula e uma mulher excessivamente ocupada, termina com dois pontos depois dos quais Ulisses continuaria a dizer a Loreley o que estava a pensar. Deste modo, Clarice diz-nos que a conversa íntima entre dois amantes é infinita e particular – e diz-nos simultaneamente que o que se segue será da nossa responsabilidade, será o nosso livro, o nosso romance. Se todos podemos ser Ulisses e Loreley, cada um o será a seu modo – esta mistura de individualidade e impessoalidade extremas é a pedra de toque da modernidade global e fragmentária em que vivemos, e é também a qualidade suprema da escrita de Clarice: tudo aquilo de que ela fala nos rasga as entranhas, por muito estranho que pareça – e nessa estranheza entranhada a nossa alegria e a nossa dor são também a descoberta do mundo.

A vírgula, acumulativa, digressiva, buliçosa, sinaliza a mulher. Os dois pontos, defensivos, reflexivos, narcísicos, sinalizam o homem. O que se passa durante o romance é a aproximação entre estes dois mundos, até à fusão. A relação entre Loreley e Ulisses faz-se de silêncios, esperas, um trajecto de noite e solidão em que tudo o que ambos sabiam antes de se encontrarem se transfigura e prepara para a sabedoria maior do amor. O erotismo cresce, página a página, de um modo sinfónico perfeitamente orquestrado, até esse clímax em que os amantes «se amaram tão profundamente que tiveram medo da própria grandeza deles». O que é raro e belo é que continuam ainda a amar-se, para lá da página e da pontuação. Em 2012, sei que Clarice estará ao meu lado, noite após noite, com o coração selvagem que nunca perdeu– e, afinal, só isso importa.

Crónica de Inês Pedrosa (segundo o anterior acordo ortográfico) publicada na edição de janeiro da LER. Achei aqui.

Manifesto

Manifesto – Só a leitura salva from Marcos Felipe on Vimeo.

Todo o mundo que sonha em escrever bem devia começar por se dedicar a criar esse hábito simples – e delicioso – que é ler!

Boas Festas!

Boas Festas!

É dezembro e o Terapia da Palavra está de férias! Voltaremos em janeiro e esperamos que todos tenham um excelente Natal e um início de ano especialíssimo! Até 2012!

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