Um pouco de teoria

“O conto é, do ângulo dramático, unívoco, univalente. Num parêntese, cabe dizer que sentido encerram as palavras “drama”, “dramático” e cognatos. Devem ser entendidos como conflito, ação conflituosa, etc. O drama nasce quando se realiza o impacto de duas ou mais personagens, ou de uma personagem com suas ambições e desejos contraditórios. Se a paz reinasse entre as personagens, não haveria conflito, portanto, nem história. E mesmo que se viesse a escrever um conto acerca do tema da tranqüilidade de espírito, é certo que malograria esteticamente. A bem-aventurança medíocre produzida pela satisfação dos apetites primários não importa à Literatura, pois mesmo fora da Arte as pessoas “felizes” são monótonas e desatraentes: somente a dor, o sofrimento, a angústia, a inquietude criadora, etc., faz que as criaturas se imponham e suscitem interesse nos outros. A Literatura opera exatamente no plano em que o homem encara a vida como luta, tomada a consciência da morte e da precariedade do destino humano: não se acomoda, não se torna feliz; e quanto mais indaga, mais se inquieta, num permanente círculo vicioso. Aí entra a Literatura.”

MOISÉS, Massaud. A Criação Literária – Prosa. São Paulo: Cultrix, 1987. p.20.

Já pensou no sucesso que foi alcançado pela trilogia dos 50 Tons de Cinza? E em como tem texto melhor por aí? Nesse módulo vamos apresentar uma seleção de imagens literárias e do cinema pra estimular a sedução pela palavra. Sim! Um módulo de contos eróticos com os mestres Mario Vargas Llosa, Isabel Allende, Maiakovski e Bernardo Bertolucci, pra citar alguns.

Vamos juntos buscar o desejo através das palavras. Escrever desejos. Brincar com imagens, aguçar a imaginação. A criatividade, a explosão semântica, a ambiguidade.

Esta oficina, composta de 6 aulas, visa a fazer com que você, participante, desenvolva a capacidade de produzir textos de cunho erótico.

Que tal deixar de vergonha e soltar a criatividade?

Investimento

à vista R$ 360,00 ou 2x R$ 210,00

Inscrições aqui:

 

http://www.terapiadapalavra.com.br/servicos/escrita-criativa-modulo-de-contos-eroticos

Ocupações maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelopes com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca c ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

 

(Júlio Cortázar, in Histórias de Cronópios e Famas)