¨ O que você esconde? (via Vida Simples)

Todos temos, em alguma medida, um segredo muito bem guardado. Vale a pena revelá-lo ou é melhor mantê-lo para si?

Todo mundo tem algum tipo de segredo. Uma mania, uma fantasia, o desejo de vingança, um romance proibido, o passado nebuloso; são tantas as variantes que nem cabe listá-las aqui. E porque elas existem entende-se que as ocultações permeiam a existência humana, tanto que é difícil imaginar um bom romance, uma boa novela (quem matou Odete Roitman?), um bom filme sem uma pitada de segredo. Um bom exemplo disso pode ser visto no filme As Pontes de Madison, dirigido por Clint Eastwood. Em menos de dois minutos, o roteiro revela ao espectador que as duas horas seguintes discorrerão sobre as coisas que guardamos para nós. “Talvez vocês descubram que sua mãe tinha milhões de segredos”, diz uma personagem ao casal de filhos cuja mãe, encarnada pela impecável Meryl Streep, havia deixado de herança para ambos a revelação de algo muito secreto: o romance que ela viveu com um fotógrafo durante os quatro dias em que o marido e os filhos viajaram. Três diários trancados em um baú continham os detalhes das confidências de Francesca Johnson. De tão íntimas, ela não as contou nem após a morte do marido. Mas ao mesmo tempo era algo tão importante que ela não conseguiu levá-lo para o túmulo sem compartilhá-lo com o filho e a filha.

Segredos são assim. Alguns contados, outros não. Tudo depende de o que eles nos causam e de como convivemos com eles. É normal guardarmos para nós o que não queremos dividir com amigos, parentes, namorado, marido, filhos. “Não se compartilha tudo nas relações”, afirma o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, de São Paulo. Porque em uma relação a dois existe o Eu, o Tu e o Nós, e as pessoas têm de ter isso muito bem organizado intimamente e entender que o Eu é fundamental para a vida de cada um, já que nele estão nossos genuínos pensamentos, sentimentos, desejos, sonhos, manias, fantasias, devaneios e, claro, segredos.

Para continuar lendo, clica aqui ó!

* trechos de livros que andam por aí (xxii)

Parte um



1988-1992

Vinte e poucos anos

“Foi um dia memorável, pois operou grandes mudanças em mim. Mas isso se dá com qualquer vida. Imagine um dia especial na sua vida e pense como teria sido seu percurso sem ele. Faça uma pausa, você que está lendo, e pense na grande corrente de ferro, de ouro, de espinhos ou flores que jamais o teria prendido não fosse o encadeamento do primeiro elo em um dia memorável.”
Charles Dickens, Grandes esperanças

CAPÍTULO UM

O futuro

Sexta-feira, 15 de julho de 1988
Rankeillor Street, Edimburgo

— Acho que o importante é fazer diferença — disse ela. — Mudar alguma coisa, sabe?

— Você está falando de “mudar o mundo”?

— Não o mundo inteiro. Só um pouquinho ao nosso redor.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, os corpos entrelaçados na cama de solteiro, depois começaram a rir em voz baixa, na mesma altura do amanhecer.

— Nem acredito que eu disse isso — murmurou ela. — Um pouco batido, não é?

— É, um pouco batido.

— Estou tentando servir de inspiração. Preparar sua alma negra para a grande aventura à sua frente. — Virou-se e olhou para ele. — Não que você precise disso. Imagino que já esteja com o futuro bem-planejado, muito bem-planejado. Deve ter até um fluxograma ou coisa assim guardado em algum lugar.

— Até parece.

— Então, o que você vai fazer? Qual é o seu grande plano?

— Bom, meus pais vão guardar minhas coisas na casa deles, depois vou passar uns dias no apartamento de Londres, ver alguns amigos. Depois França…

— Muito legal…

— Depois talvez China, ver o que acontece por lá, quem sabe ir até a Índia, viajar um pouco pelo país…

— Viajar — ela suspirou. — Tão previsível.

— O que há de errado em viajar?

— É mais uma forma de fugir da realidade.

— Eu acho que a realidade é algo muito superestimado — contestou, esperando que a frase soasse cínica e carismática.

Ela fungou.

— É, imagino que sim, para quem pode pagar. Mas por que não dizer simplesmente: “Vou tirar umas férias de dois anos”? É a mesma coisa.

— Porque viajar amplia os horizontes — respondeu ele, apoiando-se sobre um cotovelo e dando um beijo nela.

— Ah, acho que os seus horizontes já estão bem ampliados — comentou ela, virando a cabeça para o outro lado, ao menos naquele momento.

Os dois se ajeitaram outra vez no travesseiro. — De qualquer forma, eu não estava falando do que você vai fazer no mês que vem, estava falando do futuro mesmo, sei lá…

— Fez uma pausa, como se vislumbrasse uma ideia fantástica, uma quinta dimensão. — Quando você tiver uns quarenta anos. O que você quer ser quando tiver quarenta anos?

— Quarenta? — Ele pareceu se debater com aquele conceito. — Não sei. Será que posso responder “rico”?

— Mas isso é tão superficial.

— Está certo. Então, “famoso”. — Começou a esfregar o nariz no pescoço dela. — Um pouco mórbido tudo isso, não?

— Não é mórbido, é… fascinante.

— Fascinante! — Agora ele imitava a voz dela, seu leve sotaque de Yorkshire, fazendo-a parecer bobinha. Isso sempre acontecia com ela, garotos bacanas falando com voz engraçada, como se um sotaque fosse algo estranho e incomum, e não pela primeira vez sentiu um estremecimento de aversão em relação a ele que a tranquilizou. Afastou-se até apoiar as costas na parede fria.

— Sim, fascinante. E não é para menos, é? Com todas essas possibilidades. Como disse o diretor, “as portas da oportunidade se abriram…”.

— “Os seus nomes estarão nos jornais de amanhã…”

— Isso é pouco provável.

— Então por que você está tão empolgada?

— Empolgada? Eu estou morrendo de medo.

— Eu também. Saco… — Virou-se de repente e pegou o maço de cigarros no chão ao lado da cama, como para acalmar os nervos. — Quarenta anos de idade. Quarenta anos. Puta inferno.

Achando graça na aflição dele, ela resolveu piorar um pouco mais o cenário.

— Então, o que você vai estar fazendo quando tiver quarenta anos?

Ele acendeu o cigarro, pensativo.

— Bom, Em, o negócio é…

— “Em”? Quem é “Em”?

— Todo mundo chama você de Em. Eu ouvi.

— É, os meus amigos me chamam de Em.

— Então, posso te chamar de Em?

— Vai nessa, Dex.

— Bom, eu já andei pensando nessa história de “ficar velho” e decidi que vou continuar exatamente como sou no momento.

Dexter Mayhew. Ela o observou por entre a franja, recostado na cabeceira acolchoada da cama barata, e, mesmo sem óculos, entendeu muito bem por que ele queria continuar exatamente daquele jeito. Olhos fechados, o cigarro colado languidamente no lábio inferior, a luz da manhã filtrada pelo tom avermelhado das cortinas aquecendo um lado do rosto, ele parecia estar sempre posando para uma fotografia. Emma Morley considerava “bonitão” um termo banal, do século XIX, mas na verdade não havia outra palavra que o descrevesse, a não ser talvez “lindo”.

* Segundo a tradição inglesa, as condições meteorológicas do dia 15 de julho, o Dia de São Swithin (o bispo de Winchester, clamado por duas doações para caridade e construção de igrejas), permanecerão por quarenta dias. (N. da E.)

Para ler o primeiro capítulo todo, clica aqui.

(In “Um Dia”, de David Nicholls,  Ed. Intrínseca)