* trechos de livros que andam por aí (xxiii)

Êêêê…

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para mais razão, apenas para mais loucura.

O menino volta a esticar as pernas na escada. Ouvimos o apito de um barco no rio, um som melancólico. Como um pio de mau agouro. Mas não tenho por que sentir medo agora. Sou um homem sem medo, o que é bem raro aqui neste lugar.

In “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios“, de Marçal Aquino, Editora Cia. das Letras.

As Muitas Faces do Amor

É cada vez mais comum ver pessoas em relações múltiplas, abertas, poliamorosas. É uma forma diferente de viver a paixão. POR Kátia Abreu

REVISTA VIDA SIMPLES – Edição 127

João amava teresa que amava Raimundo que a amava de volta, mas também amava Maria que amava ainda Joaquim e Lili. Se a literatura refletir os costumes, as antologias do século 21 estarão cheias de histórias assim.

As pessoas têm cada vez mais liberdade para amar como acham melhor, sem seguir formatos predeterminados. Se você se apaixonar por dois homens ou duas mulheres, poderá namorar ambos, como algumas pessoas fazem hoje. Se quiser viver um relacionamento aberto, poderá também. E, claro, se quiser passar 40 anos com a mesma pessoa, você terá esse direito.

“Penso que daqui a um tempo menos pessoas vão querer se fechar numa relação a dois e vai haver mais relações múltiplas”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins. Em sua mais recente obra, O Livro do Amor (Ed. Best Seller), Regina apresenta um panorama da história do sentimento da Pré-História até a atualidade. A forma como as pessoas se relacionavam mudou ao longo do tempo e, segundo a autora, continua mudando. “Hoje existe uma busca por realizações pessoais; a grande viagem é para dentro de si mesmo. O amor romântico deixa de ser atraente porque ele propõe o oposto disso: a fusão dos amantes.”

Mas como é que chegamos a essa ideia de amor romântico? Na Pré-História, por volta do ano 3000 antes de Cristo, as pessoas viviam em grandes grupos. Ninguém era de ninguém – ou melhor, todos cuidavam de todos. Quando aí entra a figura do casal e dos filhos, a exclusividade estava ligada a questões de herança, não a sentimentos. A ideia era transmitir os bens aos herdeiros de sangue; por isso, passou-se a regular a fidelidade, especialmente a das mulheres.

Isso perdurou por muitos séculos, até que poetas e nobres medievais passaram a tratar o sentimento como fonte de esperança e felicidade. “O amor romântico existe desde o século 12, mas só entrou como possibilidade no casamento a partir do século 18 – antes, casava-se por outros interesses. Casar por amor só virou um fenômeno de massa a partir dos anos 1940, incentivado por Hollywood”, conta Regina.

Alguns anos depois, a desilusão e insatisfação geradas pelo pós-guerra levaram os mais jovens a questionar os valores da sociedade e a felicidade pintada nas telas de cinema. A contracultura, que emergiu no fim dos anos 1950 e ganhou força nas décadas seguintes graças aos movimentos hippie, feminista e gay, é pedra fundamental das transformações que vivemos hoje. “Desde então, estamos em um processo de profunda mudança das mentalidades”, diz Regina. “Não tem mais aquela ética do sacrifício, de ter que ceder, pagar qualquer preço para ter alguém do lado.”

Ilusões perdidas

“Eu tinha o ideal de achar minha alma gêmea; me apaixonei, tentei fazer dar certo, mas não funcionou. Boa parte da minha razão de viver era a outra pessoa, e ela se sentiu muito pressionada”, conta Marcelo, que tomou contato com as ideias defendidas pelo grupo Redes Relações Livres (RLi) enquanto ainda era monogâmico. Ele estava no meio de uma crise, longe da namorada, triste por não poder vê-la. Foi então que uma amiga sugeriu que ele estava encarando a relação com um peso desnecessário. “Ela fazia parte de um grupo de pessoas que viam outra forma de se relacionar. Achei muito interessante e inteligente o que eles propunham. Só que eu ainda estava namorando, então deixei as ideias de canto”, diz ele. O namoro acabou e, há quase três anos, Marcelo passou a frequentar as reuniões do grupo em Porto Alegre. Meses depois, começou a se relacionar com a amiga que o apresentou ao novo estilo de vida. “Tive relações com outras pessoas. Atualmente, estou com ela e mais uma companheira – e funciona”, diz Marcelo, que acredita que amar duas (ou mais) pessoas ao mesmo tempo é natural. “Isso acontece com diversas pessoas. Mas a maioria se sente culpada, por achar que é errado.”

A paulista Janaína (o nome foi trocado a pedido da entrevistada) passou por isso. Em março de 2011, começou a namorar um rapaz. Os dois saíam sempre acompanhados do melhor amigo dele. Um dia, rolou um lance entre os três. “Foi inesperado. Fiquei em crise, achando que devia escolher um deles”, diz ela. Mesmo confusa, aceitou seus sentimentos e foi morar com os dois. “Nós somos uma família. Os três se cuidam, se desejam e querem construir algo juntos.”

Logo depois de se mudarem para a mesma casa, Janaína fez uma viagem sozinha, em que aproveitou para refletir sobre a questão. “Percebi que tem uma flutuação, tem épocas que estou mais perto de um, em outras, do outro, e tudo bem”, diz. “Tem mães que têm dois filhos e recebem o mesmo tipo de pergunta que fazem a mim: “Como você divide seu tempo? Não tem ciúme entre eles?  Na hora em que eu saquei que era o mesmo tipo de questão, ficou tudo bem.”

Mesmo quem sempre intuiu que a monogamia não era seu caminho sofre para se adaptar. No início de suas relações, Charô, que mora em São Paulo, se sentia mal por amar mais de uma pessoa. “Ainda considerava uma espécie de traição.” Ela mantém um companheiro há 15 anos, com quem tem uma filha de 1 ano, e explica que a relação deles foi passando por diversas fases ao longo do tempo. “Tinha muita vontade de ter outros relacionamentos, mas não aceitava que ele tivesse. Por um tempo, a gente viveu nesse híbrido. Depois passamos pela fase swing, depois poliamor e agora estamos caminhando para relações livres. Nosso relacionamento está em constante readequação”.

Os elos da corrente

As novas relações em curso podem ser de diversos formatos. Há casais que fazem pequenas aberturas em seus relacionamentos: seja indo a casas de swing, seja permitindo que em determinados momentos, como no Carnaval, o parceiro possa se relacionar com outras pessoas. No poliamor, o relacionamento é centrado numa ideia de família, só que expandida. E, em geral, as relações são múltiplas, mas fechadas, como a de Janaína, pressupondo a polifidelidade. Já nas relações livres, o foco é o indivíduo e ele tem liberdade para agir como quiser. Charô vê os relacionamentos não monogâmicos como uma régua, onde não há etapas a serem superadas, mas sim gradações de desconstrução: “No swing, você desconstrói a questão do sexo com a mesma pessoa. No poliamor, desconstrói o sexo e o amor. Na relação livre, o amor, o sexo e todas as outras questões da conjugalidade”. É uma espécie de liberdade gradativa, em que a cada elo da corrente que se quebra, mais livre a pessoa é.

Mas isso não quer dizer que vale tudo. Stèphannie ressalta: “Não tem obrigação de ter profundidade nas relações. Mas tem que ter muita responsabilidade.” Marcelo também se incomoda quando associam seu estilo de vida ao desprendimento, à ideia de que ele se apega ou ama menos. “Não sou um cara de ir às festas e pegar um monte de garotas. Em geral, as pessoas com quem faço sexo são pessoas com quem acabo desenvolvendo uma relação afetiva.” Ele conta ainda que, mesmo vivendo o amor de outro modo, ainda considera complicado o fim de uma relação: “Amo minhas companheiras e, se acabar, vou ficar mal. Mas é mais fácil de compreender, pois você já parte da ideia de que a relação não necessariamente vai durar para sempre”.

O ciúme

O ciúme é outro ponto crucial para quem adota novos modelos de relacionamento. Assim como o amor, é uma construção social, estimulada em nossa cultura. É considerado prova de afeto. “Mas quando a pessoa sai, volta, sai de novo, você começa a perceber que a pessoa volta mais feliz e isso melhora sua relação com ela. O ciúme vai perdendo o sentido, porque não tem mais o medo de perder”, comenta Stèphannie a respeito da dúvida que a RLi mais recebe por e-mail.

Porém, por mais que a desconstrução do ciúme faça sentido na teoria, nem todo mundo consegue aplicá-la na prática. Charô conta do rolo de sete anos que teve com um rapaz que não agia de acordo com seu discurso. “Quando se envolveu comigo, já começou a me chamar de ‘minha’. Um dia, estava dançando numa balada e ele veio: `Pô, você tá dançando com outro cara?’.”

Ambiente e autonomia

“Entender racionalmente é uma barbada. O problema é ter o equilíbrio emocional para enfrentar e ter ambiente para agir”, diz Stèphannie, que cresceu em uma cidade do interior, onde era difícil expressar seu modo de vida. “Não tenho problema com o que as pessoas vão pensar, mas é um problema quando eu dependo delas. Não posso ter a relação que quiser enquanto depender financeiramente do meu pai.” Janaína se defrontou com uma questão parecida. Alguns amigos do trabalho sabem que ela tem dois namorados, mas após ouvir um papo do pessoal do RH de que “fulano é confiável porque tem uma namorada há cinco anos”, achou melhor não espalhar mais a notícia.
E, se a visão de amor está menos ligada à posse, uma antiga dica continua válida. “É fundamental desenvolver a capacidade de ficar bem sozinho e perceber suas singularidades. A gente tem que abandonar os modelos e cada um deve ficar livre para escolher sua forma de viver”, diz Regina.

Cada um livre para amar como quiser.

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Ocupações maravilhosas

Que ocupação maravilhosa é cortar a pata de uma aranha, metê-la num envelope, escrever Senhor Ministro das Relações Exteriores, acrescentar o endereço, descer a escada aos pulos, botar a carta no correio da esquina.

Que ocupação maravilhosa é ir andando pelo Boulevard Arago contando as árvores, e a cada cinco castanheiros parar um momento num pé só e esperar que alguém olhe, e então soltar um grito seco e breve, e girar como um pião, os braços bem abertos, igual à ave cakuy que se vê nas árvores do norte da Argentina.

Que ocupação maravilhosa é entrar num café e pedir açúcar, açúcar outra vez, três ou quatro vezes açúcar, e ir formando um monte no meio da mesa, enquanto cresce a fúria nos balcões e debaixo dos aventais brancos, e exatamente no meio do monte de açúcar cuspir suavemente e espiar a descida da pequena geleira de saliva, escutar o barulho de pedras quebradas que o acompanha e que nasce nas gargantas contraídas de cinco fregueses e do patrão, homem honesto em certas horas.

Que ocupação maravilhosa é tomar o ônibus, descer em frente ao Ministério, abrir caminho a golpes de envelopes com selos, deixar para trás o último secretário e entrar, firme e sério, na grande sala de despacho toda de espelhos, no momento exato em que um contínuo vestido de azul entrega uma carta ao Ministro, e vê-lo abrir o envelope com cortador de papel de origem histórica, enfiar dois dedos delicados e retirar a pata da aranha e ficar olhando, e então imitar o zumbido de uma mosca c ver como o Ministro empalidece, quer tirar a pata mas não consegue, está agarrado pela pata, e dar-lhe as costas e sair assobiando, anunciar nos corredores a renúncia do Ministro e saber que, no dia seguinte, entrarão as tropas inimigas e tudo irá para o inferno e será uma quinta-feira de um mês ímpar de um ano bissexto.

 

(Júlio Cortázar, in Histórias de Cronópios e Famas)