# Entrevista com Giscar Otreblig (Guia de Produção Textual da Puc-RS)

imagination-tree

GPT – E a literatura árabe?
Giscar – Vai bem, obrigado. Editores descobrem a atual geração de escritores de língua árabe. E cresce, surpreendentemente, o número de mulheres árabes escritoras.

GPT – Por exemplo?
Giscar – Rajaa Alsanea, ameaçada de morte, por revelar em seu livro “Vida dupla”, como vivem os jovens de classe média alta na Arábia Saudita. E Fadia Faqir, ativista jordaniana que defende os direitos da mulher no mundo árabe. Vejo o seu livro “Meu nome é Salma”.

GPT – Qual o maior nome da literatura árabe moderna?
Giscar – É Naguib Mahfouz, Nobel de literatura em 1988.

GPT: Além de professor e escritor, o senhor é crítico literário e ministra oficinas de escrita criativa. Que é mesmo escrita criativa?
Giscar – A escrita criativa, em certo sentido, se opõe à escrita utilitária, burocrática. Poderia ser denominada de escrita literária, lúdica. A escrita de poemas, de contos, de jogos de palavras, etc…

GPT – Mas uma dissertação não pode ser criativa?
Giscar – Sem dúvida. Escrita criativa tem um sentido mais amplo do que aquele mencionado anteriormente: a criatividade exerce-se em todos os níveis de produção lingüística. Manifesta-se em diferentes tipos de texto.

GPT – Até numa receita culinária?
Giscar – Até numa receita culinária. Que o diga o Sr. Houaiss. Mas observe-se: há graus de criatividade.

GPT – Então, quando um texto é criativo?
Giscar – Um texto é criativo quando se afasta da vala comum dos outros textos. Quando divergir, tanto quanto possível, de outros textos na abordagem do tema, no emprego dos recursos gráficos e fônicos, na seleção dos vocábulos, na construção das frases, no emprego dos recursos semânticos, etc.

GPT – O senhor falou “tanto quanto possível…”
Giscar – Sim. Foi Voltaire quem disse: “a originalidade não é senão uma imitação prudente. Os mais originais escritores pegaram emprestado uns dos outros”.

GPT – Então nenhum texto é inteiramente original?
Giscar – Acho que não. Cada texto é uma transformação de outros textos. Isso é muito fácil de ser entendido. Nenhum texto se produz no vazio ou nasce numa inocente solitude. Ao contrário, alimenta-se de outros textos. É o fenômeno da intertextualidade…

GPT – Qual a implicação do que o senhor acaba de afirmar para um “aprendiz da escrita”, para o ensino da língua portuguesa?
Giscar – Quanto mais lemos e bem, mais possibilidades temos de compreender um texto, um poema, determinado escritor, de entender os caminhos percorridos por ele. Por outro lado, mais aptos estaremos de escrever nossos próprios textos. Ler não é apenas um verbo… ensinar a ler é a prática mais importante na Educação.

GPT – Então uma oficina de escrita criativa tem importância relativa?
Giscar – Eu diria que sim. Diria mais: quem deseja cursar uma oficina de escrita criativa deveria conhecer os objetivos da oficina, fazer algumas aulas e, a partir daí, decidir se é conveniente, bom, produtivo fazer todas as aulas.

GPT – Que objetivos o senhor estabelece para suas oficinas?
Giscar – Desfazer mitos, preconceitos a respeito da escrita; ensinar o aluno a ler; entender os mecanismos da escrita criativa; vivenciar a experiência de construir textos criativos; resgatar no oficineiro a consciência de que ele é um ser criativo…

GPT – Ensinar a ler?
Giscar – Sim, exatamente. Ensinar a ler como um escritor. Desnudar cada palavra. Cada frase. Cada parágrafo, texto … para descer às profundezas da linguagem e fruir o belo.

GPT – Mas tem-se dito muito que escrever é um dom. Que o senhor acha?
Giscar – Escrever é um dom… mas um dom de todos, pois a linguagem é apanágio da espécie humana.

GPT – Posso concluir que também não é uma questão de inspiração…?
Giscar – Inspiração é/deve ser como visita de sogra. Está chegando e … já deve estar saindo. (Giscar queria retirar essa comparação… pois considera (e é) preconceituosa. Diz que sua sogra é generosa como uma geladeira: sempre obsequiosa, prestativa…).

GPT – É questão de trabalho, de transpiração, para usar de um lugar comum?
Giscar – Fernando Sabino afirmou que não tem facilidade nem para escrever uma carta. E Paulo Mendes Campos disse quem tem facilidade para escrever não é escritor, é orador. Escrever é uma dura estiva de desembarcar idéias na folha branca, imaculada. É um desafio constante. É um constrangimento. Mas é isso que nos empurra para o desafio da escrita, para as situações criativas, para gerar histórias, poemas, textos. A criatividade surge da dificuldade, da necessidade de resolver um problema. Olavo Bilac, quando se punha a escrever, dizia que baixava um anjo diabólico e lhe sussurrava: hoje estás fadado a escrever sem inspiração. Escrever é trabalho, é cavar fundo na memória, é voar com a imaginação, é desvendar subterrâneos, desbravar galerias… reescrever…

GPT – Escrever é um exercício humano.
Giscar – Escrever é um exercício humano. Requer disciplina, disposição, ambição, uma boa dose de imaginação (a louca da casa), sensibilidade, ter uma dor de cotovelo, estar de bem com a vida (ou não…). E alguns quilômetros rodados. De preferência, desde a infância. Escrever é um exercício de liberdade. E de coragem: as palavras queimam. E é um exercício de solidão… mas que nos arranca de nós mesmos e nos leva ao encontro dos outros, do mundo, solidarizando-nos.

GPT – Louca da casa?
Giscar – “Louca da casa” é a expressão empregada por Santa Teresinha do Menino Jesus para referir a imaginação. Rosa Montero se apropriou da frase para dar nome a um de seus livros. A escritora madrilenha diz que imaginação é a louca fascinante que mora no sótão. Ser romancista (e escritor, e poeta, e…) é conviver feliz com a louca lá de cima. E não ter medo de visitar todos os mundos possíveis e alguns impossíveis”.

GPT – Li, não lembro onde, que muitos romances, contos, poemas nascem de uma frase.
Giscar – É mesmo. Nascem de uma célula, de um ovinho, como costumo dizer. Esta célula pode ser uma emoção, um rosto, uma frase, um fato. Meu primeiro romance “Oásis” nasceu de uma frase “o sertão é dentro da gente… viver é muito perigoso”.

GPT – O senhor escreve muito?

Giscar – Estou sempre escrevendo. Escrevo antes de deitar, dormindo, nas horas de insônia, quando acordo, quando passeio com meus cachorros… Eu escrevo mentalmente sempre. As frases, as idéias estão sempre borbulhando no meu sótão. E se não anoto a tempo…

GPT – Voltando à gênese de uma obra: da dor de perder também nasce a obra…
Giscar – A frase é do psicólogo Phillipe Brenot, autor de “O gênio da loucura”. “… Nasce de uma experiência profunda, captada pela sensibilidade do artista que apreende momentos perturbadores da existência: as perdas, os danos, os enganos, os logros, os malogros, os desenganos, os segredos, os amores, os desamores, o nascimento, a vida, a morte, a opressão, a angústia, a náusea, o ser, o não-ser, o ciúme, a inveja, a ira, a solidão… Fazer literatura, ler literatura, é falar/ler sobre nós mesmos… sobre mim… sobre ti. Sobre o mundo. Da vida feita de angústias e felicidades.

GPT – A literatura é então conhecimento?
Giscar – A literatura é luz. É relâmpago que abre clareiras na treva. É trovão. Que pode sacudir as mentes, que lança chamas que incendeiam e clarificam a realidade. Escrever é, então, um ato maiêutico. É um ato solidário. É um ato libertador. É um ato político. É um ato de amor.

GPT – Muito obrigado!
Giscar – Obrigado a você.

[é pegadinha. Mas o texto é bom, não?]

# RTP entrevista Rosa Montero

Leitores são “necessários e essenciais para o escritor”
** Ana Nunes Cordeiro, da Agência Lusa **

rosa

Em Lisboa para apresentar o seu novo romance, “Instruções para Salvar o Mundo”, publicado pela Porto Editora, a romancista falou da sua relação com a escrita, cinco anos depois de ter lançado “A Louca da Casa”.

A escritora espanhola Rosa Montero considera que “a maior recompensa é ter leitores” e que estes são “necessários e essenciais para o escritor”.

Segundo a escritora, “a História da Literatura está cheia de escritores que perderam os leitores, que fracassaram por qualquer razão. Se calhar, escritores muito bons, mas que na sua época não foram lidos e que enlouqueceram e passaram o resto da vida num hospital psiquiátrico ou se suicidaram”, disse em entrevista à Lusa.

Para continuar lendo a entrevista de Rosa Montero a RTP – que tem uns toques ótimos, diga-se – clique aqui.

# segundo caderno entrevista inês pedrosa

Inês Pedrosa e a declaração de amor ao Brasil
Enviado por André Miranda
(do blog do Prosa & Verso, do O Globo)

A escritora portuguesa, atração da Flip, transforma paixão pelo país em literatura
(Foto de Marco Antônio Teixeira)

Um pedido de perdão a nossos patrícios portugueses por tentarmos roubar uma de suas mais talentosas autoras, mas a verdade é que Inês Pedrosa está praticamente se tornando uma brasileira. A escritora é uma das convidadas da 6a. Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que será aberta hoje, às 19h, com a “A poesia envenenada de Dom Casmurro”, de Roberto Schwarz, lembrando a obra de Machado de Assis, autor homenageado pelo evento este ano. Amanhã, às 19h, Inês dividirá a mesa “Sexo, mentiras e videotape” com a britânica Zöe Heller e a gaúcha Cíntia Moscovich. Mas visitar o país, para a escritora portuguesa, não é o bastante para confessar seu amor. Seu novo romance, chamado “A eternidade e o desejo”, recém-lançado pela Alfaguara, é ambientado no Brasil, mais especificamente numa Salvador pontuada por textos do Padre Antônio Vieira. Em entrevista ao GLOBO, a simpática escritora fala de sua paixão pelo país, comenta a importância do amor em sua literatura e critica o acordo ortográfico da língua portuguesa.

“A eternidade e o desejo” é passado no Brasil. Quantas vezes você vem ao país anualmente?
Três, em média. Mas conto aumentar essa média… embora o meu sonho seja poder ir ficando mais tempo de cada vez.

É possível enxergar o livro como uma declaração de amor ao Brasil?
Creio que sim. O amor, como a literatura, não tem exterior.

O que o romance tem de pessoal? O que você levou da sua própria viagem ao Brasil para a história da protagonista Clara?
O percurso geográfico, a experiência da excursão de grupo, a visita ao terreiro de candomblé, as personagens dos guias turísticos — tudo isso saiu diretamente da viagem que fiz com o Centro Nacional de Cultura aos locais brasileiros relatados pelo Padre Antônio Vieira.

E por que pontuar a história a partir de relatos de Vieira? Qual a importância dele para a literatura lusófona contemporânea?
Fiz essa viagem lendo intensamente o Padre Antônio Vieira, e os seus poderosíssimos textos foram o rastilho do meu livro. Não gosto da expressão “lusófona”, acho mais justa a expressão “literatura de língua portuguesa”. Fernando Pessoa definiu Vieira como “o imperador da língua”, e é isso que ele continua a ser: os seus textos resistem ao tempo, porque analisam, com uma lucidez alucinada, as cintilações e as trevas da alma humana — e também porque têm uma cadência encantatória, hipnótica, manifestando um domínio absoluto da arte de manipular consciências através da palavra.

O livro traz doses fortes de amor e, também, de dor, de perda. Esses fatores, amor e dor, estão sempre ligados? A mesma relação poderia ser feita também em seu outro livro, “Fazes-me, falta”, não?
Amar é aceitar o risco da dor, porque toda a entrega traz em si o fantasma da perda — quanto mais nos entregamos a alguém, mais perdemos o controle da nossa felicidade; em vez de, só para dar o exemplo maior, sofrermos por antecipação a nossa morte, passamos a sofrer por antecipação o desaparecimento do ser amado. Esse tema surge muito em “Fazes-me falta”, sim.

Há alguns anos, praticamente só dois autores portugueses contemporâneos eram publicados e conhecidos no Brasil: José Saramago e Lobo Antunes. Hoje, além de você, temos José Luiz Peixoto, Francisco Viegas, Miguel Sousa Tavares, Gonçalo Tavares, Patrícia Reis, Lidia Jorge… A mudança ocorreu no Brasil, que teria passado a aceitar melhor a literatura portuguesa, ou ocorreu em Portugal, que teria passado a divulgar melhor seus autores?
A mudança ocorreu nos dois países, felizmente. Também Portugal voltou a editar autores brasileiros. Penso que estamos todos finalmente a conseguir deixar para trás complexos coloniais e preconceitos caricaturais. Essa comunhão enriquece-nos mutuamente.

Na Flip, você vai participar de uma mesa chamada “Sexo, mentiras e videotape”. É claro que os nomes dessas mesas eventualmente são brincadeiras, mas, seguindo esse espírito, o que haveria de sexo, mentiras e videotape em sua literatura?
Videotape há muito pouco — eu gosto mais de cinema a sério, sala escura, o esplendor do mistério das imagens. Sexo existe em todo o ato criativo e, por isso, nos meus livros também — aliás, cada vez mais. Mentira é a própria ficção: uma mutante mentira que faz com que o brilho fixo da verdade se torne perceptível.

O que você acha do acordo ortográfico da língua portuguesa?
Só quem nunca leu o desconchavado texto do acordo pode achar que ele pode servir para alguma coisa. Eu li — e portanto sei duas coisas simples e fundamentais: em primeiro lugar, o acordo mantém inúmeros desacordos, porque decreta que a ortografia respeitará “a pronúncia culta da língua” (expressão que, por si só, é uma gargalhada de cultivadíssima estupidez). Ora, isso significa, por exemplo, que o Brasil continuará a escrever “recepção” e Portugal passará a ser “receção”. Em segundo lugar, as incongruências (na hifenização, por exemplo) são tantas, as exceções tão numerosas, que ninguém vai conseguir acertar com o desacordo correto. E que fazer àqueles cuja pronúncia não é, segundo os sábios, “culta”?

Como Portugal tem recebido o acordo?
A população, em geral, não percebe para que servirá o acordo — e, sim, tem medo que isso signifique uma derrota do português de Portugal face ao do Brasil. Mas é um medo meramente futebolístico, rápido e passageiro como um gol. Se o dinheiro investido neste acordo e nos seus mordomos fosse gasto a fazer ações de difusão da língua e das suas literaturas pelo mundo afora, a difusão da língua seria muito maior.

O angolano Pepetela disse que é difícil avaliar qual o mais importante escritor de língua portuguesa. Você concorda?
Pepetela tem razão: não só é difícil e contrário ao espírito da literatura hierarquizar escritores segundo a sua importância, como é igualmente difícil saber se um escritor está realmente vivo, só porque existe, fisicamente, no presente. Desconfio que muitos deles parecem vivos, porque publicam livros, e até às vezes em grandes tiragens, com muitas vendas, mas estão mortos — porque não acrescentam um grão de inquietação ao mundo. Eu juraria que o Padre Antônio Vieira está vivo — como Clarice Lispector ou Fernando Pessoa, Machado de Assis ou Luís de Camões. Mas eu nem sequer conheço todos os escritores de língua portuguesa vivos. Dos que conheço, aquele que me perturba e motiva desde há mais tempo e com maior intensidade é Agustina Bessa Luís.

E você já está trabalhando no seu próximo livro? Poderia nos dizer sobre o que ele vai tratar?
Vagamente. Sei que vai passar pelo Brasil, de novo, e muito naturalmente, porque eu sinto-me, se me dão licença, pelo menos tão brasileira como portuguesa. Fui criada pelo Chico, pela Bethânia e pelo Caetano, pela Clarice e pelo Drummond e pelo Guimarães Rosa, amo a poesia do Eucanaã Ferraz, a poesia da Maria Lúcia Dal Farra e a poesia e os ensaios do Antonio Cicero, que escreve aquilo que eu penso antes que eu tivesse tido capacidade sequer de pensar em pensá-lo. Quanto à trama, não posso adiantar ainda muito — não só para não a esgotar, como também porque não é muito importante. Os enredos são pretextos, melodias que nos conduzem à sinfonia do tema. Só sei que o meu próximo livro vai tratar do intratável de sempre: as declinações do amor (do riso às lágrimas, do poder à perdição) e as antevisões da morte. Não vejo que haja outro assunto. Para mim, pelo menos, não há.

(Entrevista publicada no Segundo Caderno, do O Globo desta quarta-feira)

# entrevista tom stoppard no estadão (flip)

Tom Stoppard confirma presença na próxima FLIP  (Festa Literária Internacional de Paraty) e deu uma entrevista ao Estadão, que reproduzo abaixo. No texto, o escritor nos conta um pouco do seu processo criativo, e de lambuja a programação da FLIP, pra quem quiser conferir. Para ler direto no site do Estadão, clique aqui:

”O diálogo surge de forma natural em minha escrita, é algo instintivo”
Stoppard fala de seu processo de criação e explica por que quase recusou o convite para vir ao Brasil
Ubiratan Brasil

Quando foi convidado para participar da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty, o dramaturgo e roteirista checo naturalizado inglês Tom Stoppard ameaçou agradecer e dizer não – o desprazer de estar longe de seus livros o faz recusar convites de lugares distantes. ”Mas, cinco minutos depois, pensei: ”Não posso morrer sem nunca ter visitado a América do Sul.”” Foi o suficiente para reconsiderar e confirmar presença, tornando-se o mais ilustre convidado da festa que ocorre em julho (leia abaixo).Aos 70 anos (completa mais um em plena Flip), Stoppard tornou-se famoso pelas histórias inteligentes e engenhosas que criou para cinema, TV, rádio e, principalmente, teatro, sua base natural. Shakespeare Apaixonado, por exemplo, garantiu o Oscar de melhor roteiro que Stoppard dividiu com Marc Norman. O bardo inspirou-lhe ainda a peça Rosencrantz e Guildenstern Estão Mortos, que ele mesmo levou ao cinema. Participou ainda do roteiro de Brazil, dirigido por Terry Gilliam.
Na verdade, são poucos os que conseguem mostrar as rachaduras de uma relação. ”Crio diálogos com facilidade”, contou ele ao Estado, em conversa telefônica na qual confessou já ter pisado uma vez em solo sul-americano. ”Fiz baldeação em Bogotá, em uma viagem para as Ilhas Galápagos. Mas não entra na minha conta.”
 
Um roteirista brasileiro, que também é escritor, Marçal Aquino, disse em uma feira literária (Festival da Mantiqueira) que não considera roteiro de cinema uma peça literária. O que você pensa disso?
Creio que pode ser considerado literatura, embora eu nunca tenha escrito roteiros originais – sempre fiz adaptações de obras ou participei do trabalho de outros. Mas acredito que os bons roteiros podem ser admirados como peça literária. Gosto de cinema, embora existam poucos filmes que eu respeite e adoro. Mas são esses que eu respeito principalmente como escritor.

E quais seriam esses filmes?
Alguns são pequenas jóias e assim não seriam se não partissem de um roteiro admirável: Chinatown, Quanto mais Quente Melhor, Os Suspeitos, LA Confidencial, A Vida dos Outros são alguns exemplos. Escrever roteiro para cinema, na verdade, exige uma habilidade natural e específica, diferente da de quem escreve para teatro. No meu caso, acredito ter mais facilidade para a dramaturgia.

Em uma entrevista, você disse não enfrentar problemas para escrever diálogos. O que considera, então, difícil ao escrever?
Considero a estrutura muito difícil de criar. Diálogo, por alguma razão que não entendo, me vem naturalmente. É interessante: a estrutura é algo que você pode estudar a forma, diferente do diálogo, pois é algo instintivo. E escrever o que uma pessoa diz para a outra é a parte do trabalho que mais me agrada. Sei que é um clichê, mas posso garantir que é verdadeiro dizer que, em alguns momentos, o diálogo surge naturalmente na minha escrita.

E, quando você escreve, as imagens da peça surgem na sua mente, assim como as falas dos personagens?
Sim. As imagens sempre surgem na minha cabeça, mas cuido para não me influenciar demais por elas. Quando era mais jovem, eu me preocupava em detalhar como deveria ser o cenário, a sonoplastia, o trabalho artístico, enfim. Com o tempo, descobri que existem profissionais mais capazes para realizar esse trabalho. Hoje, em minhas peças, coloco apenas algumas pistas para inspirar os artistas.

O processo criativo é dolorido?
Não, eu não diria isso. O que me incomoda é não encontrar um assunto para minhas peças. Neste momento, comecei a escrever uma, mas a anterior foi finalizada dois anos atrás. É deprimente o período entre uma e outra. Afeta meu humor. Mas, no instante em que retomo a rotina, nada mais interessa que a nova peça. E o que sinto não é sofrimento, mas estar sob uma tensão, de evitar perder aquele momento criativo.

Por falar nisso, você escreveu trabalhos para cinema, televisão, rádio, mas sempre voltou para o teatro. Por que?
É uma questão interessante. Quando eu era mais jovem, o teatro inglês tornou-se o foco de muita atenção e isso incentivou muitas carreiras. Eu trabalhava como jornalista e escrevia sobre teatro – não fazia críticas, mas reportagens. Conhecia atores, diretores, era algo muito excitante e ainda continua sendo. Decidi me aventurar por essa carreira pelo prazer da aventura e pelo desafio de criar uma história com capacidade de ser encenada. E hoje minha preferência pelo teatro se justifica pelo motivo de que o dramaturgo tem mais controle sobre sua peça que um roteirista sobre seu roteiro. Com raras exceções, não é novidade que astros de cinema gostem de mudar suas falas durante a filmagem. Na verdade, ontem (segunda-feira), escutei no rádio a entrevista de um roteirista que dizia exatamente isso. Apesar de se preocupar com cada vírgula de seu texto, ele percebia que, tão logo a cena era filmada, os atores mudavam quase tudo. Isso é difícil acontecer no teatro. Pode parecer vaidade, mas os dramaturgos são respeitados e percebidos como parte importante do processo.

Em um trabalho recente, a trilogia The Coast of Utopia, você fez muita pesquisa histórica. É prazeroso esse tipo de trabalho?
Sim, muito. Para ser sincero, especificamente nessa trilogia, eu me obriguei a parar de ler para então começar a escrever, pois o tempo empregado em pesquisa já era grande. Atualmente, busco me ocupar com peças que não exigem investigação, pois estou com uma idade em que não tenho tempo a perder. E uma peça de teatro normalmente não demanda tanto esforço como um romance – se você escrever uma página por dia, terá uma peça finalizada em três meses. Mas eu não tenho uma produção tão constante. Quando disse antes que a estrutura da peça é meu maior desafio, o mais dificultoso, na verdade, é encontrar o tema que desperte minha curiosidade.

E onde você busca esses fatos?
Minha ilusão é encontrá-los em jornais e revistas – sou viciado em imprensa escrita, leio diariamente diversas publicações, as quais vasculho em busca de idéias. Mas, ao final, nem sempre ali é uma boa fonte. Tenho mais sorte em conversas triviais com amigos, pois sempre fui atraído por assuntos abstratos. Gosto de idéias vindas de narrativas. Minha dificuldade é inventar histórias e personagens cujas características se encaixem nas idéias que realmente acredito serem interessantes.

Você colaborou no roteiro do filme Brazil, dirigido por Terry Gilliam. Qual foi sua participação na história?
Criei a maioria dos diálogos. Gilliam escreveu o roteiro e havia maravilhosas passagens descrevendo alguns sonhos que necessitavam de uma situação básica. Então, ele me convidou para criar uma estrutura e também acrescentar um pouco de graça. Assim, reinventei a trama, escrevi os diálogos com mais humor e devolvi para ele. Gilliam criou aquele mundo chamado ”Brazil” e não eu. Lembro-me que o avisava sempre de que George Orwell tinha feito algo parecido antes e ele respondia: ”Tudo bem, tudo bem.” Foi só depois de terminada a filmagem que Gilliam admitiu nunca ter lido 1984 e de ter se surpreendido com a semelhança com Brazil.

Em seu livro On Directing Film, o dramaturgo, roteirista e cineasta americano David Mamet afirma que ninguém, em um estúdio de filmagem, sabe ler um roteiro. O que pensa disso?
Entendo o que ele quer dizer. A leitura de um roteiro exige uma mente criativa, pois muitos desses trabalhos são difíceis de ler. Assim, espera-se uma pessoa com sensibilidade suficiente para entender as intenções. A experiência que conquistei no teatro me ensinou a ser o mais claro possível no texto, pois o pior acontece quando elenco e diretor não entendem suas pretensões. Creio que Mamet faz, ao dizer isso, uma distinção entre um ponto de vista subjetivo e outro objetivo. Nem sempre é fácil traduzir no papel o que se passa na sua imaginação. Daí a necessidade de se encontrar um meio termo que não prejudique a intenção original.

PROGRAMAÇÃO

2 DE JULHO

19 h – A Poesia Envenenada de Dom Casmurro, palestra de Roberto Schwarz
21 h – Show de abertura, com Luiz Melodia
Tenda da Matriz

3 DE JULHO

10 h – Mesa 1
Primeiro Tempo
Adriana Lunardi
Emílio Fraia
Michel Laub
Vanessa Bárbara
 
11h45 – Mesa 2
O Espelho
Elisabeth Roudinesco
15 h – Mesa 3
Retrato em Branco e Preto
Carlos Lyra
Lorenzo Mammi

17 h – Mesa 4
Conversa de Botequim
Humberto Werneck
Xico Sá

19 h – Mesa 5
Admirável Mundo Velho
Tony Judt

4 DE JULHO

10 h – Mesa 6
Formas Breves
Ingo Schulze
Modesto Carone
Rodrigo Naves

11h45 – Mesa 7
Ficções
João Gilberto Noll
Lucrecia Martel

15 h – Mesa 8
Os Fuzis
Caco Barcellos
Misha Glenny

17 h – Mesa 9
Estética do Frio
Martín Kohan
Nathan Englander
Vitor Ramil

19 h – Mesa 10
Veludo Cotelê
David Sedaris

5 DE JULHO

10 h – Mesa 11
Guerra e Paz
Chimamanda
Ngozi Adichie
Pepetela

11h45 – Mesa 12
A Mão e a Luva
Neil Gaiman
Richard Price

15 h – Mesa 13
Fábulas Italianas
Alessandro Baricco
Contardo Calligaris

17 h – Mesa 14
Paraíso Perdido
Cees Nooteboom
Fernando Vallejo

19 h – Mesa 15
Shakespeare, Utopia e Rock”n”Roll
Tom Stoppard

6 DE JULHO

10 h – Mesa 16
Os Livros Que Não Lemos
Marcelo Coelho
Pierre Bayard

11h45 – Mesa 17
Sexo, Mentiras e Videotape
Cíntia Moscovich
Inês Pedrosa
Zoe Heller

15 h – Mesa 18
Papéis Avulsos
Flora Süssekind
Luiz Fernando Carvalho
Sergio Paulo Rouanet

17 h – Mesa 19
Folha Seca
José Miguel Wisnik
Roberto DaMatta

19 h – Mesa 20
Livro de Cabeceira
Convidados da Flip lêem trechos de seus livros prediletos