Toda a luz que não podemos ver

toda_Luz

“Tocar alguma coisa de verdade, ela está aprendendo – seja a casca do tronco de um plátano nos jardins; ou um besouro preso em um alfinete no Departamento de Entomologia; ou o interior primorosamente lustroso de uma concha de vieira no laboratório do dr. Geffard –, significa amá-la.”

O livro do título, de Anthony Doerr, foi o vencedor do Pulitzer de 2015.

* trechos de livros que andam por aí (xxiii)

Êêêê…

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para mais razão, apenas para mais loucura.

O menino volta a esticar as pernas na escada. Ouvimos o apito de um barco no rio, um som melancólico. Como um pio de mau agouro. Mas não tenho por que sentir medo agora. Sou um homem sem medo, o que é bem raro aqui neste lugar.

In “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios“, de Marçal Aquino, Editora Cia. das Letras.

queimam como fabulosos fogos de artifício

Daquele momento em diante quase não vi mais Dean, e fiquei um pouco triste também. As energias deles se fundiram com uma precisão exata, e eu era somente uma cópia malfeita, incapaz de acompanhar o ritmo deles. Começou então o louco redemoinho de tudo o que ainda estava por vir; este redemoinho acabaria misturando meus amigos e o pouco que restava da família numa gigantesca nuvem de poeira sobre a Noite Americana. Carlo falava a Dean sobre o velho Buli Lee, Elmer Hassel e Jane: Lee, que plantava maconha no Texas, Hassel na ilha de Riker, Jane, que vagara pelo Times Square em plena viagem de benzedrina, com sua menininha nos braços, e acabara em Bellevue. E Dean falou para Carlo sobre desconhecidos do oeste como Tommy Snark, o craque manco das mesas de bilhar, viciado no baralho e veado abençoado. Falou também sobre Roy Johnson, Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros de rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles percorriam as ruas juntos, sacando tudo com aquele jeito que tinham nesses primeiros anos, e que mais tarde se tornaria mais amargurado, penetrante e vazio. Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante — pop — pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!” Como é mesmo que eles chamavam esses garotos na Alemanha de Goethe? Desejando ardorosamente aprender a escrever tão bem quanto Carlo, Dean, como é fácil imaginar, começou a envolvê-lo com aquela alma insinuante e amorosa que só mesmo um verdadeiro vagabundo poderia ter. — Carlo, agora deixe que eu fale — o que eu tenho a dizer é o seguinte… — Não os vi por umas duas semanas, durante as quais eles selaram sua amizade numa proporção tão intensa quanto seu diálogo delirante de todos os instantes.

(Jack Kerouac, trecho de Pé na Estrada)

* trechos de livros que andam por aí… (i)

– Esqueça.
– Como assim?
– Suas chances são bem pequenas.
– O que minhas chances têm a ver com isso? Eu estou apaixonado por ela, o fato de ela não estar apaixonada por mim, ou ainda, o fato de ela me odiar, não muda nada.

Se é que isso não aumenta a paixão. O prazer do amor impossível vem exatamente do fato de não ter a menor chance de “dar certo”. Um amor “dar certo” é um conceito que muda de tempos em tempos e de lugar para lugar. Nos últimos cem anos, no Ocidente, criou-se um consenso que um amor “dar certo” significa monogamia eterna com prazer sexual, casar com uma pessoa só pela qual se está apaixonado e ser-lhe fiel e apaixonado até que a morte os separe. “Dar certo” já significou, e em muitos lugares ainda significa, produzir filhos saudáveis, ratificar acordos de paz entre clãs, tribos ou nações, garantir a posse de terras, manter tradições familiares, agradar aos pais ou pagar dívidas. Casamento e paixão eterna ao mesmo tempo é uma idéia recente e que só pegou em alguns lugares do planeta, como o futebol de salão.

(in Trabalhos de Amor Perdidos, Jorge Furtado, Ed. Objetiva)