* trechos de livros que andam por aí (xxiii)

Êêêê…

O trecho está grifado no livro. Nele, o professor Schianberg dá voz a Nietzsche – “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura” -, para depois contestá-lo, lembrando que na loucura dos amores contrariados não há espaço nenhum para mais razão, apenas para mais loucura.

O menino volta a esticar as pernas na escada. Ouvimos o apito de um barco no rio, um som melancólico. Como um pio de mau agouro. Mas não tenho por que sentir medo agora. Sou um homem sem medo, o que é bem raro aqui neste lugar.

In “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios“, de Marçal Aquino, Editora Cia. das Letras.

queimam como fabulosos fogos de artifício

Daquele momento em diante quase não vi mais Dean, e fiquei um pouco triste também. As energias deles se fundiram com uma precisão exata, e eu era somente uma cópia malfeita, incapaz de acompanhar o ritmo deles. Começou então o louco redemoinho de tudo o que ainda estava por vir; este redemoinho acabaria misturando meus amigos e o pouco que restava da família numa gigantesca nuvem de poeira sobre a Noite Americana. Carlo falava a Dean sobre o velho Buli Lee, Elmer Hassel e Jane: Lee, que plantava maconha no Texas, Hassel na ilha de Riker, Jane, que vagara pelo Times Square em plena viagem de benzedrina, com sua menininha nos braços, e acabara em Bellevue. E Dean falou para Carlo sobre desconhecidos do oeste como Tommy Snark, o craque manco das mesas de bilhar, viciado no baralho e veado abençoado. Falou também sobre Roy Johnson, Big Ed Dunkel, seus amigos de infância, seus companheiros de rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles percorriam as ruas juntos, sacando tudo com aquele jeito que tinham nesses primeiros anos, e que mais tarde se tornaria mais amargurado, penetrante e vazio. Mas, nessa época, eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos, e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante — pop — pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos “aaaaaaah!” Como é mesmo que eles chamavam esses garotos na Alemanha de Goethe? Desejando ardorosamente aprender a escrever tão bem quanto Carlo, Dean, como é fácil imaginar, começou a envolvê-lo com aquela alma insinuante e amorosa que só mesmo um verdadeiro vagabundo poderia ter. — Carlo, agora deixe que eu fale — o que eu tenho a dizer é o seguinte… — Não os vi por umas duas semanas, durante as quais eles selaram sua amizade numa proporção tão intensa quanto seu diálogo delirante de todos os instantes.

(Jack Kerouac, trecho de Pé na Estrada)

* trechos de livros que andam por aí… (i)

- Esqueça.
– Como assim?
– Suas chances são bem pequenas.
– O que minhas chances têm a ver com isso? Eu estou apaixonado por ela, o fato de ela não estar apaixonada por mim, ou ainda, o fato de ela me odiar, não muda nada.

Se é que isso não aumenta a paixão. O prazer do amor impossível vem exatamente do fato de não ter a menor chance de “dar certo”. Um amor “dar certo” é um conceito que muda de tempos em tempos e de lugar para lugar. Nos últimos cem anos, no Ocidente, criou-se um consenso que um amor “dar certo” significa monogamia eterna com prazer sexual, casar com uma pessoa só pela qual se está apaixonado e ser-lhe fiel e apaixonado até que a morte os separe. “Dar certo” já significou, e em muitos lugares ainda significa, produzir filhos saudáveis, ratificar acordos de paz entre clãs, tribos ou nações, garantir a posse de terras, manter tradições familiares, agradar aos pais ou pagar dívidas. Casamento e paixão eterna ao mesmo tempo é uma idéia recente e que só pegou em alguns lugares do planeta, como o futebol de salão.

(in Trabalhos de Amor Perdidos, Jorge Furtado, Ed. Objetiva)

* trechos de livros que andam por aí (xxii)

Parte um



1988-1992

Vinte e poucos anos

“Foi um dia memorável, pois operou grandes mudanças em mim. Mas isso se dá com qualquer vida. Imagine um dia especial na sua vida e pense como teria sido seu percurso sem ele. Faça uma pausa, você que está lendo, e pense na grande corrente de ferro, de ouro, de espinhos ou flores que jamais o teria prendido não fosse o encadeamento do primeiro elo em um dia memorável.”
Charles Dickens, Grandes esperanças

CAPÍTULO UM

O futuro

Sexta-feira, 15 de julho de 1988
Rankeillor Street, Edimburgo

— Acho que o importante é fazer diferença — disse ela. — Mudar alguma coisa, sabe?

— Você está falando de “mudar o mundo”?

— Não o mundo inteiro. Só um pouquinho ao nosso redor.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, os corpos entrelaçados na cama de solteiro, depois começaram a rir em voz baixa, na mesma altura do amanhecer.

— Nem acredito que eu disse isso — murmurou ela. — Um pouco batido, não é?

— É, um pouco batido.

— Estou tentando servir de inspiração. Preparar sua alma negra para a grande aventura à sua frente. — Virou-se e olhou para ele. — Não que você precise disso. Imagino que já esteja com o futuro bem-planejado, muito bem-planejado. Deve ter até um fluxograma ou coisa assim guardado em algum lugar.

— Até parece.

— Então, o que você vai fazer? Qual é o seu grande plano?

— Bom, meus pais vão guardar minhas coisas na casa deles, depois vou passar uns dias no apartamento de Londres, ver alguns amigos. Depois França…

— Muito legal…

— Depois talvez China, ver o que acontece por lá, quem sabe ir até a Índia, viajar um pouco pelo país…

— Viajar — ela suspirou. — Tão previsível.

— O que há de errado em viajar?

— É mais uma forma de fugir da realidade.

— Eu acho que a realidade é algo muito superestimado — contestou, esperando que a frase soasse cínica e carismática.

Ela fungou.

— É, imagino que sim, para quem pode pagar. Mas por que não dizer simplesmente: “Vou tirar umas férias de dois anos”? É a mesma coisa.

— Porque viajar amplia os horizontes — respondeu ele, apoiando-se sobre um cotovelo e dando um beijo nela.

— Ah, acho que os seus horizontes já estão bem ampliados — comentou ela, virando a cabeça para o outro lado, ao menos naquele momento.

Os dois se ajeitaram outra vez no travesseiro. — De qualquer forma, eu não estava falando do que você vai fazer no mês que vem, estava falando do futuro mesmo, sei lá…

— Fez uma pausa, como se vislumbrasse uma ideia fantástica, uma quinta dimensão. — Quando você tiver uns quarenta anos. O que você quer ser quando tiver quarenta anos?

— Quarenta? — Ele pareceu se debater com aquele conceito. — Não sei. Será que posso responder “rico”?

— Mas isso é tão superficial.

— Está certo. Então, “famoso”. — Começou a esfregar o nariz no pescoço dela. — Um pouco mórbido tudo isso, não?

— Não é mórbido, é… fascinante.

— Fascinante! — Agora ele imitava a voz dela, seu leve sotaque de Yorkshire, fazendo-a parecer bobinha. Isso sempre acontecia com ela, garotos bacanas falando com voz engraçada, como se um sotaque fosse algo estranho e incomum, e não pela primeira vez sentiu um estremecimento de aversão em relação a ele que a tranquilizou. Afastou-se até apoiar as costas na parede fria.

— Sim, fascinante. E não é para menos, é? Com todas essas possibilidades. Como disse o diretor, “as portas da oportunidade se abriram…”.

— “Os seus nomes estarão nos jornais de amanhã…”

— Isso é pouco provável.

— Então por que você está tão empolgada?

— Empolgada? Eu estou morrendo de medo.

— Eu também. Saco… — Virou-se de repente e pegou o maço de cigarros no chão ao lado da cama, como para acalmar os nervos. — Quarenta anos de idade. Quarenta anos. Puta inferno.

Achando graça na aflição dele, ela resolveu piorar um pouco mais o cenário.

— Então, o que você vai estar fazendo quando tiver quarenta anos?

Ele acendeu o cigarro, pensativo.

— Bom, Em, o negócio é…

— “Em”? Quem é “Em”?

— Todo mundo chama você de Em. Eu ouvi.

— É, os meus amigos me chamam de Em.

— Então, posso te chamar de Em?

— Vai nessa, Dex.

— Bom, eu já andei pensando nessa história de “ficar velho” e decidi que vou continuar exatamente como sou no momento.

Dexter Mayhew. Ela o observou por entre a franja, recostado na cabeceira acolchoada da cama barata, e, mesmo sem óculos, entendeu muito bem por que ele queria continuar exatamente daquele jeito. Olhos fechados, o cigarro colado languidamente no lábio inferior, a luz da manhã filtrada pelo tom avermelhado das cortinas aquecendo um lado do rosto, ele parecia estar sempre posando para uma fotografia. Emma Morley considerava “bonitão” um termo banal, do século XIX, mas na verdade não havia outra palavra que o descrevesse, a não ser talvez “lindo”.

* Segundo a tradição inglesa, as condições meteorológicas do dia 15 de julho, o Dia de São Swithin (o bispo de Winchester, clamado por duas doações para caridade e construção de igrejas), permanecerão por quarenta dias. (N. da E.)

Para ler o primeiro capítulo todo, clica aqui.

(In “Um Dia”, de David Nicholls,  Ed. Intrínseca)

* trechos de livros que andam por aí (xxi)

Mari continua a guardar silêncio. O rapaz segura a faca e o garfo nas mãos, e, pensativo, observa o espaço vazio sobre a mesa. E, em seguida, retoma a palavra:

- Certa vez, eu li uma história sobre três irmãos que foram parar numa certa ilha lá do Havaí. É uma mitologia, ok? Daquelas bem antigas. Eu ainda era criança quando li esta história, e por isso não me lembro direito, mas é mais ou menos assim… Três rapazes saíram para pescar e, ao se depararem com uma tempestade, o barco naufragou. Após ficarem um longo tempo à deriva, foram parar numa praia de uma ilha deserta. Era um lugar paradisíaco com inúmeros pés de coqueiros carregados de frutos. Bem no meio dessa ilha, uma montanha alta erguia-se imponente. Nessa mesma noite, Deus apareceu no sonho dos três e lhes disse: “Seguindo a praia, um pouco mais à frente, vocês encontrarão três rochas redondas, bem grandes. Cada um deve pegar a sua e rolando-a deve levá-la para onde quiser. O local em que vocês colocarem a rocha será onde cada um irá viver. Quanto mais alto chegarem, melhor será a visão que terão do mundo. Fica a critério de cada um de vocês até onde pretendem chegar.”

O rapaz toma um gole de água e faz uma pausa. Mari parece indiferente, mas seus ouvidos estão bem atentos.

- Até aqui, você entendeu?

Mari faz um gesto afirmativo, balançando a cabeça.

- Quer ouvir o resto? Se não quiser, paro de contar.

- Se não for uma história muito longa…

- Não é tão longa assim. Até que é uma história bem simples.

Ele bebe mais um gole de água e prossegue:

- Como Deus lhes havia dito, os três irmãos encontrarm três rochas grandes na praia. E, conforme as instruções, os três começaram a rolar suas respectivas rochas. Se já era penoso rolar uma rocha grande e pesada na praia, imagina só quando tiveram que subir a montanha empurrando-a. O irmão caçula foi o primeiro a falar: “Irmãos! Para mim, aqui está bom. É perto da praia e dá pra pescar. Tenho o suficiente pra viver bem. Não me importo de não ver a vastidão do mundo.” Os outros dois continuaram a subir. Mas, ao chegarem ao meio da montanha, o irmão do meio disse: “Irmão! Para mim, aqui está bom. Frutas, aqui, são abundantes e terei o suficiente para viver bem. Não me importo de não ver a vastidão do mundo.” E, assim, o irmão mais velho continuou a subir. O caminho foi ficando cada vez mais estreito e íngreme, mas mesmo assim ele não desistiu. Era uma pessoa muito perseverante e seu desejo era o de ver a vastidão do mundo, mesmo que fosse apenas uma parte dela. E, na medida do possível, foi empurrando a rocha para o alto. Foram vários meses de contínuo esforço, com escassez de comida e bebida, até finalmente conseguir alcançar o topo da montanha. Ao chegar lá, ele parou e contemplou o mundo. Naquele momento, ele era o primeiro homem que tinha a visão mais ampla daquela vastidão. Ali seria o lugar que passaria a viver: um lugar sem plantas e que nem os pássaros sobrevoavam. Água, somente lambendo o gelo ou o orvalho e, comida, só mesmo mastigando musgos. Mas ele não se arrependeu. Isso porque conseguiu ver o mundo… E é por isso que, até hoje, nessa ilha do Havaí há uma montanha bem alta, com uma rocha redonda, bem grande, no topo dela. E essa é a história.

Silêncio.

Por fim, Mari pergunta:

- Por acaso essa história é daquelas que tem um ensinamento, uma moral ou coisa parecida?

- Creio que há pelo menos duas lições. A primeira é que… – o rapaz levanta um dedo – cada um é diferente do outro, independentemente de serem irmãos, e a segunda coisa é que… – o rapaz levanta mais um dedo – se uma pessoa quer realmente conhecer algo, deve estar ciente do preço a ser pago.

- Pra mim, as vidas que os dois irmãos mais novos escolheram viver fazem mais sentido – opina Mari.

- Concordo – admite o rapaz. – Acho que ninguém gostaria de viver no Havaí lambendo geada e comendo musgos, não é mesmo? Com certeza! Mas, para o irmão mais velho, era impossível ignorar a curiosidade de poder contemplar a vastidão do mundo. Mesmo que para isso o preço tenha sido tão alto.

(In “Após o Anoitecer”, de Haruki Murakami,  Ed. Alfaguara)